O universo, na sua quietude cósmica, não grita. Ele sussurra. E os seus sussurros são bordados com a agulha fina do acaso e da maravilha em tecidos efêmeros: o vapor da respiração numa manhã fria, o desenho da geada no vidro, a sinfonia de cores no crepúsculo e, sobretudo, as nuvens.... Elas são os grandes livros abertos do firmamento, páginas de algodão e luz que viramos com o sopro lento do vento, sempre diferentes, sempre passageiras!!!
Naquela manhã, tão comum na sua génese. O mundo ainda se espreguiçava, libertando-se dos últimos véus do sono. O sol não era ainda um soberano no seu trono, mas um rei benevolente que ascende, tingindo o horizonte com os dourados e os carmins da sua clemência. E eu ali, com as mãos enlaçadas em torno da chávena de café, sentindo o seu calor como um pequeno sol portátil, um microcosmos de conforto contra a pele. A respiração era lenta, o pensamento, um rio tranquilo. E foi nesse estado de graça, de quietude interior, que o universo decidiu falar....
Não foi um estrondo. Foi um deslizar suave. Uma porção do céu, até então apenas uma massa informe de branco e cinza, começou a desprender-se. Movida por uma coreografia de ventos caprichosos , invisíveis aos olhos mortais, ela começou a transformar-se. Não era uma miragem, não era o desejo projetando formas na indeterminação. Era algo mais profundo, mais verdadeiro. Era a materialização de um instante de pura poesia cósmica.
Das entranhas do vapor, um anjo desceu. Não um anjo bíblico de trombetas e fogo, mas uma entidade de quietude e beleza absoluta. O seu corpo era feito da mais fina renda, tecida não por mãos humanas, mas pela própria alquimia da atmosfera. As asas, não de penas, mas de plumas de nuvem, desdobravam-se com uma lentidão hipnótica, cada filamento de um branco impossível, delineado contra o azul profundo do céu. O vestido, um fluxo eterno de véus e pregas, parecia dançar uma valsa silenciosa com o vento, um movimento perpétuo de nascer e desfazer-se. Era tão perfeito, tão etéreo, que a razão capitulou. Senti um arrepio percorrer a espinha, não de frio, mas de reconhecimento. Era como tocar, por um segundo fugaz, a melodia de um mistério antigo, uma música que existe desde sempre, mas que raramente conseguimos ouvir.
E... naquele momento, a Natureza revelou-se não como uma força cega e indiferente, mas como a Artista Suprema, a Mensageira. Entre o azul e o branco, ela bordou uma mensagem simples e avassaladora: “Não estás só.” Era um lembrete de que habitamos um cosmos que não é mera matéria inerte, mas uma entidade viva, respirante, que nos observa, nos surpreende e nos cuida. Há uma beleza que não pede permissão para existir, há um cuidado que se manifesta nestes sinais efémeros, há um diálogo constante para quem tem a coragem de desacelerar e olhar para cima...!!!
Quantas destas pequenas epifanias teremos nós perdido???? Quantos anjos de nuvem se desfizeram em lágrimas de chuva porque estávamos demasiado ocupados a contar os minutos, a perseguir sombras, a olhar para os ecrãs que nos mostram um mundo, ignorando o mundo que nos é oferecido gratuitamente acima de nós???? Perdemos o espetáculo gratuito da existência, a fugaz obra-prima que se desfaz em segundos, mas que, uma vez testemunhada, ecoa na alma para sempre, transformando-se em nostalgia pura, a saudade de um momento de perfeição absoluta que, paradoxalmente, nunca nos abandonará....
O anjo na nuvem daquela manhã não precisou de ser capturado por uma câmara fotográfica. A fotografia teria aprisionado a sua forma, mas teria matado o seu movimento, a sua respiração, a sua magia. A sua verdadeira existência não está num cartão de memória, mas sim no santuário do coração. Está guardado na galeria da memória partilhada com aqueles poucos que, naquela mesma hora, em talvez outro lugar, pararam e levantaram os olhos para o céu. E talvez... só talvez!!! Mesmo sem se conhecerem, estarem unidos por aquele instante de pura maravilha . Essa é a verdadeira magia, o universo oferece-nos estes dons, mas não os entrega de mão beijada. Ele pede de nós a moeda da presença. Exige olhos atentos, um coração desarmado e uma alma aberta ao impossível!!!
Porque no grande tear do cosmos, cada nuvem é uma mensagem a espera de ser decifrada. Um cavalo-marinho, um dragão adormecido, um continente perdido, um anjo.... Cada sopro de vento que sentimos na face não é apenas ar em movimento, é um convite para levantar voo, para sermos mais leves, para deixarmos para trás o que é pesado e desnecessário. E.... cada uma destas surpresas da natureza, desde a folha que dança no outono até a constelação que cintila no inverno, é um lembrete terno e urgente: nós não estamos no cosmos, nós somos o cosmos!!! Respirámos com ele, pulsamos com o seu ritmo antigo, e ele... num ato de pura gracejo e amor, respira connosco, sussurrando-nos, vezes sem conta, que a beleza é real, que a magia é possível, e que nunca, nunca estamos verdadeiramente sós....
TilaC
